Situação da comunidade brasileira no Japão “é um enigma”, diz pesquisadora

Por que os brasileiros não encontram o caminho da ascensão social na sociedade japonesa, questiona Gracia Liu-Ferrer

Por  Roberto Maxwell/Alternativa – 05/07/2016

óquio – Estudando os chineses no Japão desde o início dos anos 2000, a pesquisadora Gracia Liu-Ferrer, da Universidade de Waseda, se viu intrigada por uma questão: por que os brasileiros não encontram o caminho da ascensão social na sociedade japonesa? “É um enigma”, diz ela, que decidiu conhecer mais de perto a comunidade brasileira. Liu-Farrer também revela como os chineses estão construindo seu espaço no Japão.
Alternativa: É verdade que a maioria dos chineses que chegam recentemente no Japão é formada por estudantes?
Gracia Liu-Ferrer: Sim, a maioria deles é estudante.
Alternativa: Me parece que alguns deles recebem apoio do governo japonês e outros vêm por conta própria…
Gracia Liu-Ferrer: A maioria deles vem por conta própria, 90%.
Alternativa: Que tipo de pessoa na China consegue vir para o Japão e bancar seus estudos aqui?
Gracia Liu-Ferrer: Eu venho estudando os estudantes chineses desde o início dos anos 2000. Encontrei estudantes chineses que vieram no final dos anos 1980, o que é algo bem recente. A maioria deles bancam suas despesas. Eles fazem diversos tipos de trabalho para levantar dinheiro para se manter.
Alternativa: Uma pessoa não precisa trazer muito dinheiro para estudar no Japão?
Gracia Liu-Ferrer: Alguns deles apresentam um documento para provar que os pais têm alguma poupança. Mas, em muitas regiões, este dinheiro pode ter sido emprestado. A maioria deles vem para o Japão porque o país é, na verdade, barato. Existem muitas oportunidades de trabalho no Japão e o governo permite que se faça até 28 horas semanais de trabalho. Claro que muitos deles acabam trabalhando mais que isso. Mas é assim que eles se mantêm aqui. Nos últimos anos, com o desenvolvimento econômico da China, tem surgido alguns estudantes que são bancados pela família. Sim, existem estudantes chineses ricos para os quais a família paga tudo. A maioria deles têm algum apoio da família no começo, mas, aos poucos, eles passam a se manter sozinhos.
Alternativa: A senhora escreveu um artigo comparando os imigrantes brasileiros no Japão com os chineses, coreanos e filipinos. Fale um pouco sobre este trabalho.
Gracia Liu-Ferrer: É um enigma. Pelo menos, de acordo com que dizem as pesquisas, os nikkeis brasileiros receberam uma boa educação. A primeira geração (aqui no Japão) estudou até o ensino médio e muitos até chegaram à universidade. Os chineses que vieram para cá também são relativamente bem escolarizados. A maioria dos estudantes que vêm para o Japão também se formou no ensino médio, pelo menos. A partir daí, você começa a ver divergências entre os dois grupos. Os chineses passam a ser funcionários de empresas japonesas, funcionários administrativos… E os brasileiros, que têm capital humano, ou seja, educação, não. Quando eu estava estudando sobre a China, um dos meus focos era a economia transnacional. A China está crescendo e nós temos o BRICs, do qual o Brasil também faz parte. A China tem uma relação muito próxima com o Japão. Os estudantes chineses têm um importante papel em fazer uma ponte entre essas duas economias e acabam encontrando um nicho [de mercado] para eles. Eles podem trabalhar com importação e exportação, com filiais no exterior, podem ajudar empresas japonesas a encontrar mercados na China… Eles atuam nesta ponte econômica, fazem dinheiro e constroem uma carreira com isso. O Brasil, em especial alguns anos atrás, estava bem. A economia estava se desenvolvendo e a sociedade estava avançando. Basicamente, era uma economia em ascensão. Então, eu pensei sobre o que poderia ter acontecido com os brasileiros. Eles falam português, estão no Japão há um bom tempo. Eles poderiam ter tirado vantagem disso, mas não o fizeram. No lugar disso, a gente ouve histórias de crianças que abandonam a escola e muitos trabalhadores brasileiros perdendo seus empregos. Por que eles ainda continuam na indústria? Foi com esse enigma que eu comecei.
Alternativa: O que a senhora descobriu?
Gracia Liu-Ferrer: Minha análise, claro, é sociológica. Para os chineses, não existe outra possibilidade já que eles são estudantes. Quem quiser ficar no Japão tem que continuar estudando e encontrar um jeito de ascender. Senão, você fica sem visto e volta para casa. Já os brasileiros têm um visto de longa duração. É livre. É flexível. Pode-se fazer o que quiser. Mas, ao mesmo tempo, eles acabam ficando presos ao setor manufatureiro pelos empreiteiros. Para os brasileiros, imigrar para o Japão é o mesmo que trabalhar em fábricas e fazer dinheiro. Já para os estudantes chineses, há muita incerteza. Nós temos que lutar para entrar na universidade se quiser continuar no Japão. E se a pessoa não consegue… Então, a imigração tem significados diferentes para esses dois grupos mesmo que, para os chineses, seja muito mais difícil em termos financeiros. Eles não podem trabalhar muitas horas. Mas eles tentam continuar estudando e encontram trabalhos depois. Se você entra numa universidade, as chances de encontrar trabalho são grandes. Esta é a situação dos brasileiros que conseguem entrar na universidade. Eles conseguem trabalho em empresas japonesas. Então, a questão é por que esses brasileiros não vão para universidade. Eu entendo que para muitos brasileiros é difícil. Nós, chineses, usamos os caracteres chineses. Então, é mais fácil para aprender a língua. Muitos estudantes chineses estudam por um ano e tentam uma vaga na universidade porque já sabem palavras suficientes para entrar na faculdade. Então, para muitos brasileiros é mais difícil. Mas, e os mais jovens? Eles têm mais tempo de entrar numa escola e tentar aprender a língua. Deveria ser um incentivo para seguir adiante. Por que eles não conseguem? Este é o meu enigma e o que eu descobri é que, antes de mais nada, o que afeta tudo isso é o significado da imigração e as conexões sociais em que cada um dos dois grupos está situada. Os chineses vivem numa rede que é mais diversa e cheia de casos de sucesso, na qual os veteranos podem dizer o que é preciso fazer para chegar lá. Eles também tem uma cultura de fazer bicos para pagar a universidade. Eu ainda tenho muito que aprender sobre a comunidade brasileira, mas eu conheci pessoas, fui até Mitsukaido (em Joso, Ibaraki) e conversei com algumas delas e tenho alunos brasileiros. Também visitei uma espécie de comitê educacional do consulado do Brasil que faz atividades com o objetivo de manter as crianças na escola. Eu vi que as conexões sociais são completamente diferentes. As formas de ver o mundo são diferentes.
Alternativa: A senhora esteve em Mitsukaido e lá existe uma escola brasileira. A senhora visitou esta escola?
Gracia Liu-Ferrer: Não, mas eu entrevistei um estudante que estava trabalhando nessa escola. Na verdade, ele não via com bons olhos a educação étnica, de um modo geral. Ele disse que faltava todo tipo de recurso e que os alunos não estavam preparados nem para entrar numa universidade brasileira nem numa universidade japonesa. Então, era uma coisa incompleta. Eu acho que isso é um problema. Qual o papel que uma escola étnica deve ter? Se for preparar estudantes meio capacitados, é um problema. É preciso saber usar os recursos e colocar essas crianças nas duas universidades. Isso é uma preocupação e tem a ver com a própria história dos nikkeis brasileiros. Apesar de eles serem descendentes de japoneses, não se sentem em casa aqui. Eles têm essa mentalidade de diáspora, querem voltar para o Brasil, querem que seus filhos voltem para o Brasil. De certo modo, as crianças não são orientadas a ter sucesso no Japão.
Alternativa: No Brasil, não é comum que crianças em condições não precárias de vida abandonem a escola e isso acontece entre os brasileiros imigrantes aqui no Japão. Eu nunca entendi muito bem isso já que, no Brasil, poucos pais aceitariam tão facilmente que seus filhos simplesmente abandonassem os estudos para trabalhar…
Gracia Liu-Ferrer: Eu acho que isso ocorre porque os pais aqui não têm certeza de onde vão viver. Acredito também que muitas crianças brasileiras tenham dificuldades nas escolas japonesas. A minha filha não é japonesa. Meu marido é americano, então ela é chamada de hafu. Ela teve muitas dificuldades na escola, já que as escolas japonesas não estão acostumadas com estrangeiros. E ela nasceu no Japão. Falavam coisas para elas. Ela se sentia hostilizada. Apesar de ter amigos, ela não andou muito feliz por alguns anos. No caso das crianças chinesas, muitas delas chegam no Japão e não falam japonês. Algumas delas recebem em casa algum tipo de ajuda neste sentido. Mas não são todas. Filhos de cozinheiros, por exemplo, não costumam se dar bem na escola. Acontece com eles o mesmo que ocorre com os brasileiros. Acho que as escolas têm alguns problemas em acolher essas crianças, em encorajá-las ao invés de forçá-las a seguir determinados caminhos e acabarm desencorajando-as a vencer. Acho que a escola precisa fazer mais para manter as crianças, para apoiá-las. Este é o problema com o fato do Japão não ser um típico país de imigração, multicultural. Muitos estudantes se sentem isolados nas escolas japoneses. Eles não gostam da escola e, se não gostam, não tem motivação para se esforçar nos estudos. Não culpo os estudantes por terem ressentimentos com a escola. A escola japonesa também requer muito envolvimento por parte dos pais e muitas famílias brasileiras não têm condições de se envolver tanto quanto as mães ou os pais japoneses se envolvem.
Foto: Roberto Maxwell/Alternativa
Gracia Liu-Ferrer, pesquisadora da Universidade de Waseda

 

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