Curitiba tem um dos últimos samurais do mundo: conheça Edson Suemitsu

Bem Paraná


Ao longo de sua história, Curitiba já teve alguns samurais de destaque. Um deles foi Paulo Leminski, apelidado de “Samurai Malandro”. Outro foi o desenhista Claudio Seto, conhecido como o “Samurai de Curitiba” por conta de seus quadrinhos. Mas é apenas um nipodescendente da Capital que pode, autenticamente, ser chamado de samurai. Trata-se de Edson Suemitsu, um Katana Kaji (forjador de Katanas) que produz espadas samurais (a Katana) na garagem da residência em que mora, no bairro Cachoeira.

Descendente de samurais tanto pelo lado materno como pelo lado paterno, Suemitsu relata que desde criança estuda a espada, tendo aprendido um pouco do ofício com cada lado da família.

“Desde criança eu estudo a espada. Antigamente, meus avós tinham a obrigação de passar (o ofício) pro mais velho. E eu sou o mais velho. Então passou para mim e eu também gostava, tinha o dom para isso, habilidade com metais”, comenta Suemitsu. “Meu pai me passou a parte teórica. A parte prática foi com meu avô do lado paterno e também estudei a forja através do lado materno. Então os dois lados me ensinaram alguma coisa.”

Os mestres, no entanto, foram diversos ao longo da jornada. Ex-mecânico e natural de Bandeirantes, ele conta que ainda na infância passava bastante tempo com imigrantes de alemães e italianos que conheciam de metalurgia. “Não faziam propriamente lâminas, mas conheciam de metais. Era adolescente e passava dias com eles atiçando o fogo, segurando alguma peça, as vezes até fazendo alguma coisa. Até ferradura já fiz, dobradiça de portão… Então começa por aí”, conta.

Com os conhecimentos adquiridos, há cerca de 15 anos passou a viver quase que exclusivamente da produção de Katanas, que comercializa por preços que vão de R$ 5,5 mil até R$ 20 mil, de acordo com o bolso e os desejos do comprador. Aos 61 anos de idade, estima já ter feito mais de 600 espadas, muitas das quais estão na Europa e oito no Japão.

Os interessados em adquirir uma Katana, porém, devem acelerar a encomenda. É que o trabalho de Katana Kaji, passado de geração em geração por séculos na família Suemitsu, irá acabar com Edson: “Meu trabalho morre comigo”, afirma.

Tem até fila de espera para a produção da Katana

A agenda de Suemitsu é corrida. A produção de uma Katana leva cerca de 12 dias. Mas como a demanda é grande, o Katana Kaji pede até 55 dias, por conta de uma fila de espera. “As vezes você não está num dia bom e tem de tirar só para fazer oração. Não é só pegar e fazer (a espada). Tem dia que tem de sair, fazer doação de alimentos, de remédios, visitar algum hospital…”, explica.

Por dia, cerca de sete e-mails de pessoas interessadas em adquirir uma espada chegam para o nipodescendente. Mas nem todos terão a fortuna de ter uma Katana produzida pelo samurai curitibano.“Tem uma agenda de espera, mas não basta a pessoa querer comprar. Tem de ver o que ela quer e para que ela quer uma espada, porque é uma arma. Se a pessoa vai dar pouco valor, não sabe para que serve, não faço”, explica Suemitsu.

Oficina é um verdadeiro templo

“Você tem que colocar três coisas num katana, são três K: kokoro, kimochi e kami. Kami é Deus. Kokoro, o coração. Kimuchi, sensação, coisa boa. Então eu carrego tudo isso aí”, explica Suemitsu, cuja oficina é uma espécie de templo. “Meu local de trabalho tem retratos dos meus pais, reverência a Deus. Isso é sentimento, isso é gratidão”, diz.

É nos fundos de sua casa, em uma pequena garagem, que o Katana Kaji produz a arte milenar. Primeiro, inicia o molde da barra de aço importada sobre labaredas de até 600ºC. Em seguida, essa barra recebe repetidas marteladas até formar a lâmina e sua ‘alma’, que serveirá de suporte para o cabo. Aí vem a parte de feitura do fio e da ponta da espada, o processo de polimento e a busca pelo corte ideal. Quando necessário esfriar a lâmina, a coloca num balde com água benta, tirada de fontes do Japão, do Rio Nilo e do Vaticano.

“É importante a água, mas a matéria primordial é a intenção, estar sempre presente. E sempre tem de fazer oraçãoi. A espada, sem oração, não vale nada”, afirma, explicando que 80% dos que compram a Katana tem como intenção garantir uma maior proteção espiritual, enquanto o restante quer a espada para a prática de artes marciais.