Aos 76 anos, japonesa mantém cultura milenar viva em Dourados por meio da dança

Yoko Terui veio ao Brasil aos 15 anos e até hoje ensina o Odori

A presença marcante de descendentes de japoneses em Dourados, a 228 quilômetros de Campo Grande, chama a atenção, sobretudo, porque são mantidos bem vivos os laços culturais com o Japão. Um desses exemplos ocorre com o Odori, dança típica da cultura japonesa apresentada por dançarinas e dançarinos de gestos delicados e precisos. As apresentações dessa arte, um dos cartões de visita da segunda maior cidade do Estado, seguem a encantar o público graças a perseverança de Yoko Terui, de 76 anos.

Yoko Terui, à direita, em apresentação no ano de 1993 (Foto: Arquivo Familiar)
Yoko Terui, à direita, em apresentação no ano de 1993 (Foto: Arquivo Familiar)

Nascida no dia 20 de março de 1940 na província de Hokkaido, no Japão, ela imigrou para o Brasil na década seguinte, aos 15 anos, junto com os pais que fugiam da miséria pós-guerra enfrentada pelo país asiático. Após o desembarque no litoral brasileiro, mudou-se para Dourados, no então Estado de Mato Grosso, onde constituiu família, mas nunca esqueceu sua cultura de origem; ao contrário, a mantém viva através da dança tradicional. Depois de casada, passou a ensaiar com um grupo de japonesas que viviam na região.

Yoko sensei, como é carinhosamente chamada pelos membros da colônia nipo-brasileira de Dourados, ensina o Odori para crianças, adultos e idosos. A competência dela é reconhecida também em São Paulo, aonde costuma dar aulas para descendentes de japoneses em Presidente Prudente, Lins, Marília e Dracena, entre outros municípios, e até no Paraguai, país que também pede pelas sempre impecáveis apresentações que ela coreografa.

Dança tradicional da cultura japonesa é ensinada para crianças, adultos e idosos (Foto: André Bento)
Dança tradicional da cultura japonesa é ensinada para crianças, adultos e idosos (Foto: André Bento)

Yoko ‘requisitada’

São poucas as palavras em português que Yoko fala. Reservada, cobra empenho de todo e qualquer aluno igualmente, independentemente da idade. Além de coreografá-los, também é responsável pelas roupas e acessórios, kimonos, leques, sombrinhas e outros materiais vindos do Japão. Devido à idade e problemas de saúde recentes, a família é cada vez mais exigida nas vésperas de apresentações.

“Ela fica tranquila, mas sempre pensa em tudo, como em cada detalhe que vai precisar para as apresentações, para não esquecer de levar as coisas. Apesar que sempre falta algo e adivinha quem tem que correr atrás?”, comenta a filha, Rose Donomae, de 45 anos, companhia inseparável da mãe.

Segundo Rose, sua mãe sempre foi muito interessada por dança e assiste a vídeos não apenas das tradicionais do Japão. “Ela se interessa também por outras modalidades como ballet, Street”, diz.  Coube à neta, Vivian, 25 anos, dar continuidade no sonho de Yoko sensei. Formada em ballet clássico, a jovem é uma das auxiliares nos ensaios de Odori.

A família explica que problemas de saúde enfrentados recentemente levaram Yoko a diminuir o ritmo. Mas a cada ensaio e apresentação, mesmo utilizando um andador, ela não tira os olhos do palco, atenta a todo e qualquer detalhe que precise ser corrigido. “A dança é o sentido da vida dela”, ressalta a filha, Rose.

Já na adolescência, quando ainda vivia no Japão, Yoko Terui se apresentava na escola; em uma dessas ocasiões, o elogio de uma professora que via nela grande talento para o Odori parece ter sido o que acendeu essa paixão que a imigrante trouxe para o Brasil e transmite desde então.

Em 2015, quando foi realizado o 14º Japão Fest, dois ônibus trouxeram a Dourados dezenas de moradores de Lins, no interior de São Paulo. Eram amigos e alunos de Yoko sensei. O grupo também participou das apresentações, que ocorrem no clube de campo da Associação Nipo-Brasileira há 14 anos, durante os meses de novembro.

No último dia de evento, a admirada professora recebeu uma homenagem. Coordenador daquela edição da festa e atualmente presidente do Clube Nipo Brasileiro de Dourados, naquela ocasião Nélio Kurimori destacou a importância de Yoko Terui para o sucesso do Japão Fest, já que o Odori atrai a atenção de centenas de visitantes, com danças intercaladas entre apresentações de Taiko (também originada no Japão) e outras contemporâneas do Brasil e diversas partes do mundo.

Da equipe atual que auxilia nos ensaios do Odori, Miyuki Ono, de 38 anos, acredita ser uma das poucas a ter tido o privilégio de assistir uma apresentação de Yoko sensei e até mesmo dançar junto com ela. “Tenho contato com a Yoko sensei desde pequena, há 31 anos que eu estou com ela. É uma pessoa que tenho admiração total e muito respeito. Admiro-a pela força que tem, na época em que estava com problema de saúde nunca deixou de pensar na dança, mesmo debilitada insistia em marcar os ensaios”, revela.

Gratidão

De todo esse tempo de convivência, Miyuki destaca a gratidão que sente pelo aprendizado. “Tudo que eu sei sobre a dança e como pessoa, é graças a ela. É muita gratidão que eu sinto por ela”.

Atualmente, além de Miyuki e da neta Vivian, quem também auxilia Yoko Terui nos ensaios é Yuki Senno, de 19 anos, companheira até de viagens para aulas fora de Dourados. Esse trio sabe que o ritmo da sensei é acelerado, difícil de acompanhar. E sucedê-la nos ensinamentos é assunto sequer comentado.

Rose, a filha de Yoko sensei, afirma que a mãe quer encontrar uma pessoa para dar continuidade em seu trabalho, mas a princípio vê dificuldades. “Ela até queria achar alguém, mas ela acha difícil, porque tem que entender muito bem o nihongo”, explica. Dominar o idioma falado pelos japoneses é fundamental, já que o Odori dá forma às letras das músicas, com gestos que representam ações relativas ao campo, à guerra, ao amor, enfim, a tudo o que mantenha vivos os laços culturais com o Japão. Até aqui, ninguém faz isso melhor do que Yoko Terui, a japonesa de 76 anos que mantém a cultura milenar viva em Dourados.

 

Fonte: Midiamax/André Bento, de Dourados