Mesmo com a digitalização, Reginaldo resiste com revistaria no centro de Campo Grande

Com a tecnologia que digitalizou as revistas e com os sites de notícias que acabaram como os jornais impressos, muitas revistarias fecharam suas portas, difícil é encontrar  uma que resista a extinção da mídia impressa.

Apesar das dificuldades, uma ainda padece no mesmo local desde sua abertura, em 1979. Na correria diária de uma Capital, poucos talvez reparem no pequeno espaço do senhor Reginaldo Tamaciro, 60 anos, uma revistaria que viveu o auge dos grandes jornais e revistas.

Tamaciro conta que tudo começou porque se casou muito cedo e não tinha profissão, resolveu então comandar o comercio iniciado pela mãe, que arrendava a loja Caprichosa e posteriormente virou Criativa, mas um desentendimento com o dono fez com que a mãe abrisse o próprio estabelecimento na rua Barão do Rio Branco. O empreendimento não durou seis meses, pois estavam em local alugado e proprietário resolveu vender o imóvel.

A mãe de Reginaldo fez então um novo investimento, comprou o salão na Rua 13 de maio, onde na época funcionava uma joalheria. Os balcões e vitrines que ostentavam joias deram espaço aos papéis que contavam histórias, e assim se deu o início da trajetória de Tamaciro e sua revistaria, de onde tira seu sustento e junto a esposa Rosenaide criou e formou seus três filhos, Bruno, Melissa e Kaue. “Tenho três filhos e a faculdade deles saiu daqui. Tive uma boa fase, criei meus filhos. O Bruno e a Melissa chegaram a me ajudar aqui, hoje estão todos formados”, diz o comerciante com um sorriso tímido, mas que deixa transparecer o orgulho das conquistas.

Em Campo Grande, até o final da década de 90, as revistarias eram pontos de encontro e locais de cultura. A localização privilegiada, próximo aos mais antigos e luxuosos hotéis, permitiu a Tamaciro conhecer muita gente famosa, entre artistas, jogadores de futebol e políticos. “Antigamente, ficávamos aberto até mais tarde, muitas vezes até as 11 da noite, não existia shopping, então eles viam aqui”.

Do lado de fora do estabelecimento, entre um cigarro e outro, Tamaciro olha ao redor e conta do crescimento da região, da segurança e dos momentos ruins. “O centro não era essa loucura, não tinha toda essa barulheira e nem esses prédios, tudo foi se transformando. Nunca fui assaltado aqui, mas passei muita raiva aqui quando o trânsito era bloqueado aos domingos  com a entrega de jornais”, conta.

O movimento diminuiu, mas para ele é gratificante ver os clientes, com seus filhos e netos frequentando até os dias atuais a revistaria.

Durante a entrevista do comerciante ao Verso da Página, poucos entraram no estabelecimento para comprar uma revista. Reginaldo, descendente de japonês e de poucas palavras permanece sempre atrás do antigo balcão, móvel que ganhou do tio quando abriu o comércio, e permanece até hoje no mesmo lugar. Aos poucos, ele lembra que o local só recebeu uma reforma durante todo esse tempo, que o público diminuiu e os títulos também. Ao olhar para as prateleiras, nota-se a ausência das revistas que tinham remessas vendidas em um único dia, como as de informáticas e as que ensinavam tocar violão que desapareceram.

“Antes eu levava jornais e revistas para casa, hoje, está tudo na internet. Todos os dias, eram pessoas atrás de revista e jornais”, lembra.

Os tempos mudaram e a tecnologia colocou na palma da mão o que os leitores querem, e para se manter Reginaldo implementou mais produtos em sua revistaria, no entanto, ele afirma que o momento é difícil e que resistiu ao tempo graças aos clientes fiéis. “Tenho clientes antigos, muitos migraram das revistarias que tinha ali na Afonso Pena e fecharam”, explica.

O balcão foi instalado assim que abriu a Revistaria em 1979 e permanece até hoje, no mesmo lugar.

O comerciante conta que os dias da revistaria estão contados e tudo que viveu não será impresso, talvez nem mesmo colocado na internet, mas estará guardado em sua memória e em seu coração. Dos momentos gratificantes, a troca de gerações é o que se destaca entre as lembranças.

“Não sei até quando vou continuar, mas levo comigo vários momentos. Ver meus antigos clientes, verdadeiros amigos e depois seus filhos e agora netos passando por aqui, é o que guardo como mais marcante”, finaliza.

Reginaldo Tamaciro não esconde o orgulho do comércio de onde tira seus sustento e formou seus três filhos.